Esta é a altura do ano em que se ouvem mais histórias com final feliz.

Pois eu tenho para vos contar uma história tão bonita, que tenho até medo de não saber contá-la como ela merece ser contada.
Há nove anos atrás (NOVE!) uma amiga minha decidiu adoptar uma criança. Tinha então 33 anos e não sendo rica, era financeiramente independente, e solteira.
Conversou com a familia e com os amigos mais próximos, e com o apoio de todos, inscreveu-se na Segurança Social como candidata a mãe de uma criança abandonada.
Perguntaram-lhe até que idade seria aceitável. Ela respondeu
que até aos 6/7 anos.
Perguntaram-lhe se tinha alguma preferência por raça, cor ou religião. Ela disse que não -
aceitaria qualquer raça, cor, ou religião.
E ainda respondeu a uma pergunta que ninguém lhe fez, ao dizer que
embora estivesse interessada em adoptar apenas uma criança, adoptaria dois, ou mesmo três se fossem irmãos. Porque jamais separaria irmãos.
Na altura, ela morava num apartamento de três assoalhadas, num dos locais ainda aprazíveis do concelho de Sintra. A primeira assistente social que a visitou (2 anos após a candidatura!) disse-lhe que “ajudaria” se o apartamento fosse maior.

De imediato, colocou o apartamento à venda e mudou-se para a margem Sul do Tejo, onde para além de conseguir comprar um apartamento maior, ficava-lhe mais perto do trabalho, logo, a menor distância da escola do filho que iria ter. Isto apesar de não conhecer ninguém na “outra” margem.
O processo de adopção foi então transferido para a margem Sul, e ela foi visitada e avaliada por diversas vezes e por diferentes pessoas. Mas nunca mais lhe atribuíam uma criança. Escreveu para diversos Ministros sem nunca obter uma resposta capaz.
Desde que meteu os papéis para a adopção, nunca mais gozou férias fora de Portugal e os subsídios que recebeu juntou-os todos numa conta-poupança para o filho que aí vinha.
Este ano resolveu desistir.
Tenho agora 42 anos e deixa de fazer sentido, disse-me ela. E foi assim que decidiu ir passar umas férias a Cabo Verde, juntamente com uns amigos que estavam de viagem marcada para Janeiro do próximo ano.
No principio de Dezembro, chamaram-na para ir buscar uma criança. O mundo deu novamente uma cambalhota e de imediato ela cancelou as férias.
Enquanto esperava que lhe mostrassem a criança, pôs-se a ler o processo que a acompanhava. E nem queria acreditar quando leu que a criança “..nunca poderia ser reinserida em zona próxima (num raio de 100km) do local de onde havia sido retirada…”. Acontece que o local em questão ficava precisamente nas traseiras???? da sua nova casa!!!

Envergonhadas, as assistentes sociais deram-lhe razão. Não tinham reparado nesse pequeno pormenor…
Uma semana depois, ligaram-lhe novamente para ir buscar uma criança aos Açores. A suas expensas e com a condição de a voltar a levar todos os anos nas férias???? Ela disse que não!
Dias depois, terceiro telefonema a anunciar que podia ir conhecer um menino de quatro anos que encaixava na perfeição no perfil pretendido.
E ela foi, muito desconfiada. Só que a empatia entre ela e este menino foi tão visivel que lhe disseram para o ir buscar uma semana depois.
A meio da semana, quando ela o foi visitar uma vez mais, disseram-lhe que o poderia levar de vez, porque ele já não dormia a chamar pela “mãe”.
Esta criança de 4 anos é o único sobrevivente de uma familia de quatro pessoas. Tem um passado muito triste e muito violento, mas o orgulho e a firmeza com que a trata por mãe, faz com que se esqueçam de vez as imbecilidades de um sistema altamente burocrático e penalizante para uma criança que quer apenas ser amada.
E consegue até perdoar aquilo que se julgava perdido - o discernimento e a compaixão pelo próximo.

Ele foi o melhor presente de Natal que esta mãe podia ter tido. Ela foi o melhor presente de Natal que ele alguma vez terá.
E no dia seguinte, dizia ao telefone que gostava muito do quarto dele, mas agora estava a ver os bonecos. Se as tias quisessem, podiam ir lá ver a àrvore de natal dele muito grande e com luzinhas.
E este conto de Natal eu juro que é verdade!