
Podia chamar-se Anabela a menina desta história. Na verdade, podia ter qualquer outro nome, mas é assim que lhe vou chamar.
A Anabela trabalha numa pequena empresa de limpezas industriais. Daquelas que prestam serviços em grandes empresas.
No trabalho dela tudo é normal. Menos a Anabela, que é uma pessoa especial.
Todos os dias entra na mesma grande empresa onde não pertence e limpa casas-de banho, despeja caixotes de lixo, limpa secretárias e aspira o chão.
Mas por ser especial, a Anabela cometeu um erro muito grave e imperdoável - ousou falar a pessoas muito importantes como se fosse igual a elas.
Foi imediatamente repreendida e explicaram-lhe que as pessoas em questão deviam ser tratadas por “Srs. Doutores”.
“Ahh, médicos..” pensou ela. Mas não disse.
No dia seguinte procurou um “Sr. Doutor” e disse-lhe “olha, podes ver a minha tensão? É que eu sinto aqui este aperto no peito que não passa…” “Não podes? Mas disseram-me que eras doutor…estavam a reinar, era?”

Nesse dia, ao limpar o chão com um produto novo, os sapatos que trazia desfizeram-se por completo. Simplesmente derreteram.
Para que pudesse voltar para casa, alguém lhe arranjou uns chinelos de quarto de hotel, desencantados do porta-bagagens. Mas a Anabela não mais largou os chinelos porque não tinha mesmo outros sapatos.
A Anabela tem um filho, um marido, e uma doença que as pessoas muito importantes não conseguem entender.
E as menos importantes, que como ela, limpam o lixo dos outros, sentem-se incapazes de proteger.
A Anabela foi mandada trabalhar noutra empresa. Muito mais longe de casa. Tão longe que não lhe será mais possível chegar de bicicleta e com um horário que dificilmente conseguirá cumprir.
“faltam-lhe poucos meses para acabar o contrato, talvez ela se despeça…”
Apetece-me perguntar onde fica o planeta dos macacos e como é que se vai para lá.